Fiocruz: vacina contra covid-19 pode chegar a testes clínicos em 2021

Enquanto se prepara para produzir a vacina contra covid-19 desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) [...]

Por Gileno Miranda/Águia News em 11/11/2020 às 19:07:51

Enquanto se prepara para produzir a vacina contra covid-19 desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca e pela Universidade de Oxford, a Funda√ß√£o Oswaldo Cruz (Fiocruz) trabalha em projetos próprios de imunizantes que podem chegar a testes em humanos em 2021. Caso esses experimentos tenham resultados positivos ao longo do ano que vem, a expectativa é que uma dessas vacinas esteja disponível em 2022.


As duas iniciativas em desenvolvimento s√£o do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos) e usam plataformas tecnológicas pioneiras. Segundo o vice-diretor de Desenvolvimento Tecnológico de Bio-Manguinhos/Fiocruz, Sotiris Missailidis, ambas est√£o em testes pré-clínicos, em laboratório, e devem passar por uma nova etapa de testes em animais conhecida como "estudo de desafio".


As vacinas j√° foram aprovadas na fase de imunogenicidade e toxicidade em animais, o que significa que produziram resposta imune sem prejudicar a saúde das cobaias. No próximo passo, os pesquisadores v√£o conferir como cobaias vacinadas responder√£o à exposi√ß√£o ao SARS-CoV-2. Por envolver o vírus em condi√ß√Ķes de causar infec√ß√£o, o teste aguardava disponibilidade de laboratório um biosseguran√ßa elevada (NB3) e est√° programado para ocorrer ainda neste mês.


"Essas duas abordagens que a gente est√° utilizando n√£o competem com as linhas de produ√ß√£o que vamos usar para a AstraZeneca. Ent√£o, potencialmente, poderíamos oferecer as duas ao mesmo tempo, o que oferece uma soberania nacional", avalia Missailidis. Ele explica que Bio-Manguinhos vai escolher qual das duas propostas de vacina é mais promissora para seguir para os testes clínicos no ano que vem.


O vice-diretor de Bio-Manguinhos destaca que é importante prosseguir com a pesquisa, independentemente do sucesso dos testes da vacina AstraZeneca/Oxford, cuja oferta total em 2021 deve chegar a 210 milh√Ķes de doses, em um esquema de vacina√ß√£o que, a princípio, prevê duas doses por pessoa. Todas essas proje√ß√Ķes ainda dependem da confirma√ß√£o da seguran√ßa e da efic√°cia da vacina, com os resultados dos testes clínicos de Fase 3 e o registro da Agência Nacional de Vigil√Ęncia Sanit√°ria (Anvisa)


"Entendo que temos garantido um quantitativo significativo [de doses], mas ainda n√£o se sabe a efic√°cia das vacinas que est√£o na frente. Ainda n√£o se sabe se uma vacina√ß√£o vai ser suficiente ou se vamos ter que nos vacinar todo ano, como acontece com a vacina do Influenza. Ter uma vacina própria, com que você pode garantir o mercado nacional, com a mesma efic√°cia de vacinas de grande farmacêuticas, é muito importante para as institui√ß√Ķes públicas, para a saúde e para a ciência brasileira", afirma o pesquisador. Segundo Missailidis, o Brasil poderia, ent√£o, exportar uma vacina própria para ajudar no combate à pandemia internacionalmente.

Novas tecnologias

Uma das propostas de vacina em desenvolvimento aproveitou a produ√ß√£o de proteínas S e N do SARS-CoV-2 que Bio-Manguinhos j√° conduzia para a produ√ß√£o de testes diagnósticos de covid-19. Classificada como vacina de subunidade, a tecnologia usada prevê a inje√ß√£o dessas proteínas no corpo humano, para que suas defesas as reconhe√ßam e se preparem para quando o coronavírus de fato inicie uma invas√£o. A proteína S é a que forma a coroa de espinhos que d√£o nome ao coronavírus, e a proteína N comp√Ķe o núcleo do vírus.


A segunda proposta desenvolvida na Fiocruz é uma vacina sintética, que utiliza peptídeos das proteínas S e N produzidos em laboratório por sínteses químicas e acoplados a nanopartículas. Esses peptídeos foram identificados por meio de modelo computacional e ativam tanto a produ√ß√£o de anticorpos quanto a imunidade celular, em que o organismo elimina as células infectadas e impede o desenvolvimento dos sintomas.


Uma dessas propostas deve chegar a testes clínicos de Fase 1, em humanos, j√° no início de 2021, e a agilidade de tais testes, especialmente na Fase 3, vai depender também de fatores externos, como a circula√ß√£o do vírus. Caso o número de novas infec√ß√Ķes caia, o tempo da pesquisa pode precisar se estender, j√° que os testes de Fase 3 dependem de que os milhares de volunt√°rios se exponham ao vírus no seu dia a dia para testar a efic√°cia da vacina.


Além das vacinas inteiramente desenvolvidas em Bio-Manguinhos, h√° ainda dois projetos j√° em curso com parcerias de outros institutos de pesquisa: uma vacina sintética com a Universidade Oxford e uma vacina proteica recombinante com o Centro de Desenvolvimento Tecnológico em Saúde (CDTS) da Fiocruz.

Modernização

As dezenas de vacinas de covid-19 que j√° alcan√ßaram os testes clínicos devem chegar ao mercado com plataformas tecnológicas inéditas, como as vacinas sintéticas, as de vetor viral e as de RNA.

No caso dos trabalhos em Bio-Manguinhos, Missailidis destaca que as pesquisas em curso podem levar à moderniza√ß√£o de outros imunizantes disponíveis no país, como vacinas que usam tecnologias de vírus vivo atenuado e, por isso, têm maiores restri√ß√Ķes de público. "Essas plataformas s√£o tecnologias novas. Havia um investimento mundial nessas novas tecnologias antes da pandemia, exatamente para preparar a humanidade para dar uma resposta mais r√°pida do que era a forma tradicional. Depois da consolida√ß√£o dessas tecnologias, é claro que isso vai mudar um pouco a nossa vis√£o de vacinologia, dependendo do custo dessas vacinas e da seguran√ßa."

Fonte: Agência Brasil

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